Hipovitaminose D — O que você precisa saber

Hipovitaminose D: o que é mito, o que é verdade, e quem realmente precisa se preocupar

A vitamina D ganhou muito destaque nas redes sociais e em conversas sobre saúde, mas, junto com a popularidade, surgem muitas informações contraditórias. Afinal, quem realmente precisa dosar ou repor vitamina D? E quais são os riscos de tomar demais?

Neste artigo, trago as orientações mais atuais com base no posicionamento oficial da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e na campanha Choosing Wisely, para que você entenda de forma clara e segura.

O que é a vitamina D e por que ela importa?

A vitamina D é um nutriente crucial, principalmente para a saúde dos seus ossos. Ela ajuda o corpo a absorver o cálcio que você ingere, garantindo que seus ossos se mantenham fortes.

A principal fonte de vitamina D é a exposição solar: sua pele produz vitamina D3 (colecalciferol) quando exposta aos raios UVB. Em menor grau, você também pode obtê-la pela alimentação, especialmente em peixes gordurosos (como salmão e sardinha), gema de ovo, cogumelos e alimentos fortificados.

Após ser produzida na pele ou ingerida, a vitamina D passa por duas etapas de ativação no organismo:

  • No fígado, ela é convertida em 25 hidroxivitamina D. Essa é a forma que os exames de sangue medem para avaliar sua reserva corporal.

  • Nos rins, ela se transforma na forma ativa (1,25 dihidroxivitamina D), que é usada em situações clínicas específicas.

Quais sintomas a hipovitaminose D pode causar?

Na maioria dos casos, a deficiência de vitamina D não causa sintomas. No entanto, uma hipovitaminose grave e crônica pode levar a problemas sérios, como raquitismo em crianças e osteomalácia em adultos. Além disso, pode estar associada a alguns sintomas como:

  • Dor generalizada no corpo

  • Fraqueza muscular

  • Fraturas

Quando faz sentido dosar a vitamina D?

Segundo a SBEM e a Choosing Wisely, a dosagem de vitamina D não deve ser feita rotineiramente em pessoas saudáveis.

A recomendação é que o exame seja reservado para pessoas que realmente têm um risco maior de deficiência, como:

  • Idosos (acima de 60 anos)

  • Pessoas com histórico de fraturas recorrentes ou osteoporose

  • Gestantes e lactantes

  • Pacientes com doença renal crônica ou hepática grave

  • Pacientes com doenças inflamatórias intestinais ou que fizeram cirurgia bariátrica

  • Pessoas em uso crônico de certos medicamentos (corticoides, anticonvulsivantes, antirretrovirais)

  • Quem tem doenças inflamatórias autoimunes (como lúpus, artrite reumatoide)

  • Pessoas com obesidade, diabetes ou sarcopenia

  • Aqueles com pouca exposição solar ou pele escura

Quais são os valores considerados normais?

De acordo com a diretriz da SBEM (2020), os valores de referência são:

  • ≥ 20 ng/mL: Suficiente para adultos saudáveis até 60 anos.

  • ≥ 30 ng/mL: Ideal para pessoas com fatores de risco (ex: osteoporose, doença renal crônica).

  • < 12 ng/mL: Indica deficiência grave.

  • > 100 ng/mL: Pode indicar toxicidade e risco de excesso de cálcio no sangue (hipercalcemia).

Um alerta: A intoxicação por vitamina D geralmente ocorre pelo uso inadequado de suplementos em doses muito altas. Isso pode levar a hipercalcemia, que se manifesta com náuseas, fraqueza, confusão mental e problemas renais.

Quando e como repor a vitamina D?

A reposição deve ser sempre personalizada, baseada nos seus fatores de risco e no nível de vitamina D no seu sangue (25 hidroxivitamina D).

  • Níveis < 12 ng/mL (deficiência grave): pode ser necessária uma dose inicial mais alta, seguida por uma dose de manutenção.

  • Níveis entre 12–30 ng/mL: a manutenção é feita com doses diárias específicas, sempre sob orientação médica.

E a exposição solar? Ela também é sua aliada! Estudos brasileiros sugerem que 10 a 15 minutos de exposição solar direta (sem protetor solar), em braços e pernas, entre 10h e 15h (durante primavera, outono e verão), podem ser suficientes para manter níveis adequados em pessoas saudáveis. Lembre-se que essa quantidade varia com a cor da pele e a latitude.

E o Cálcio: Uma dupla importante para seus ossos

Para a saúde óssea, a vitamina D e o cálcio trabalham juntos. Se a suplementação de vitamina D for indicada para você, é importante também garantir uma ingestão adequada de cálcio. A recomendação de ingestão diária de cálcio (seja pela alimentação ou suplementos, se necessário) é:

  • 1000 mg: Para pessoas entre 19 e 70 anos.

  • 1200 mg: Para pessoas com 71 anos ou mais.

  • 1200 mg: Para mulheres entre 51 a 70 anos

Como Obter Cálcio Suficiente na Alimentação? Dicas Práticas:

Atingir a quantidade diária recomendada de cálcio pode ser mais fácil do que parece, com uma alimentação equilibrada. Priorize fontes como:

  • Leite e Derivados: Um copo de 200 ml de leite (integral ou desnatado) tem cerca de 240 a 300 mg de cálcio. Iogurtes e queijos também são ótimas opções.

  • Vegetais de Folhas Verde-Escuras: Couve, brócolis, espinafre e agrião são boas fontes.

  • Peixes: A sardinha em lata (com espinhas) é uma excelente fonte, podendo oferecer mais de 300 mg de cálcio por lata pequena.

  • Leguminosas e Sementes: Feijão, grão-de-bico, lentilha, gergelim (rico em cálcio), chia, linhaça e amêndoas contribuem para sua ingestão diária.

  • Alimentos Fortificados: Verifique os rótulos de bebidas vegetais (leite de soja, amêndoa, aveia), cereais e pães, pois muitos são enriquecidos com cálcio.

Lembre-se que o equilíbrio e a variedade na dieta são fundamentais para a absorção de todos os nutrientes.

Em Resumo: O Papel do Clínico na Vitamina D

  • A vitamina D é fundamental para a saúde dos ossos, mas não é um exame de rotina para todos.

  • Adultos saudáveis, sem fatores de risco, geralmente não precisam dosar ou repor vitamina D sem indicação.

  • A avaliação deve ser individualizada, considerando seu histórico de saúde, sintomas e fatores de risco.

Seu Clínico de Confiança: O especialista em Clínica Médica é o profissional ideal para avaliar se você realmente precisa dosar ou suplementar a vitamina D. Ele considerará seu perfil completo, indicará os exames necessários e guiará um plano de cuidado baseado em evidências e nas suas necessidades.

Conclusão

A informação correta é sua melhor aliada para cuidar da saúde. Não se deixe levar por modismos ou informações desencontradas. Se você tem dúvidas sobre sua vitamina D ou qualquer outro aspecto da sua saúde, consulte um médico de confiança.

A medicina faz mais sentido quando o cuidado é personalizado e baseado na sua história.